20 de jul de 2010

Mãe de leite - Sabe o que é?

A música que a Bá adora ouvir



Quem já teve mãe de leite?

“Alguns anos atrás era muito comum a figura da “Mãe de leite”. Muitas senhoras que não eram capazes de amamentar seus filhos recém-nascidos recorriam às mães de leite para que doassem do seu seio a alimentação necessária para a sobrevivência dos mesmos. 







Aquelas mães, na maioria negras, dividiam o alimento do seu filho com o filho da outra, muitas vezes por amizade, recebendo em troca apenas complemento alimentar para o seu bebê. 




A amizade nascia e crescia entre aquelas famílias, e a criança passava a pedir a benção e a chamar de mãe de leite àquela que lhe havia garantido a sobrevivência.”


Hoje acordei e fui levado pelo cheiro delicioso que vinha da cozinha. Humm, um bolo saindo do forno. Dei um bom dia repleto de beijos na Bá. Vocês não sabem quem é a Bá, mas eu vou contar.
A Bá está fazendo hoje 80 anos(parece que tem 60), está na minha família há  4 gerações. Ela é neta de escravos. Quando a Bá nasceu, minha vó gostou daquela menina com sorriso sereno. E não deixou que os pais a levasse  para trabalhar na lavoura. Ela ficou dentro de casa ao lado da minha vó. Quando minha mãe nasceu, a Bá se apegou tanto que cuidava dela como se fosse a própria mãe. E assim, aquele laço de amizade tornou-se tão fiel, que minha mãe disse que quando ela tivesse filhos, a Bá seria a segunda mãe deles. E a Bá respondeu que seria a pessoa mais feliz do mundo por isso. Quando eu e meu irmãos viemos ao mundo, minha mãe não conseguia amamentar, e a Bá, sabe Deus como, sem nunca ter sido mãe na vida, amamentou os dois nos primeiros dias até a minha mãe ter condições de amamentar. 

Quando minha mãe se separou, eu precisei ir com meu pai. A Bá caiu em prantos. Foram dias lamentando a minha ausência. Passou muito tempo, e eu só conseguia ver a Bá nas minhas férias, e eu contava a ela meus segredos, coisas que minha mãe só soube o que tinha acontecido comigo quando eu já estava adulto. Lembro no meu aniversário de 10 anos, que eu falei pra Bá que queria fugir da casa do meu pai que eu não agüentava mais levar surras. E contei a ela como ele fazia e ela tinha que prometer que jamais contaria a minha mãe (eu na minha inocência achava que se minha mãe soubesse, ela seria vitima também). A Bá me confortava com palavras doces e dizia que eu era forte como os africanos. Lembrei disso e perguntei a ela hoje bem cedo, para relembrar o que ela havia me dito quando eu tinha 10 anos. Ela me contou que, diante do que eu estava passando, ela tinha certeza que eu tinha força de um negro. Porque as cintadas que eu levava nas costas, eu suportava quieto e deixava apenas as lagrimas caírem. Seria como a força que tinha os negros no tronco suportando as chibatadas. Ela me disse que se realmente existir reencarnação, eu já fui filho dela em outra vida. Um negro com força para agüentar as turbulências da vida.

A Bá, já teve inúmeras oportunidades de deixar a família. A minha mãe deu casa, e tudo que ela precisaria para viver até o fim da vida dela. Mas ela não quis. Ela disse que se for para ela viver sozinha numa casa sendo dela, ela nem estaria viva nessa altura. Porque ela é feliz com a família que a minha mãe deu a ela. A Bá optou por viver aqui na fazenda até o ultimo dia de vida. Eu sempre a considerei como uma segunda mãe.  E eu sempre a defendi com todas as minhas forças. Ela me contou que se lembra como se fosse hoje, eu chegando com lagrimas e pedindo a ela que me ajudasse a limpar minha boca e testa porque estava machucado, porque dois filhos de um fazendeiro tinham me dando uma surra, mas eu não tinha contado a ela o motivo. Mas ela sabia olhando nos meus olhos. Eu pedia que não contasse a ninguém que eu tinha me machucado por isso. Ela disse que de fraco eu não tinha nada, porque encarei dois de uma vez. Ela dizia: - o leite da sua Bá é forte, você se tornou um campeão!

Ela é minha Bá, sempre será, e ela até hoje me chama de “meu filho”.
A Bá quando soube que eu sou pai, ela ficou tão feliz, e quando cheguei com as meninas foi uma festa só. Ela primeiramente agradeceu a Deus por está viva e conhecer a 4ª geração da família que proporciona felicidade a ela.
Perguntei a ela enquanto comia o bolo: - Bá, você não se arrepende de não ter tido filhos?
Ela me responde: - Mais filhos? Eu já tive sua mãe, você e seus irmãos e agora suas meninas. E queria está viva para ver chegar a 5ª geração (filha da minha filha).
Eu: Bá, também quero que isso aconteça.

P.S: A Bá é como a nossa matriarca, ela é a nossa rainha e tem tudo o que precisa, ela tem cuidados especiais. E se ela ainda faz questão de fazer comida pra família, é porque ela ama cozinhar. Ela é conselheira da minha mãe e minha também, eu não sei o que seria da minha vida sem essa mulher forte e corajosa.
Hoje, dia 20 de julho, é o dia do amigo, é o seu aniversário. Você disse que presente não quer ganhar, porque já recebeu quando conheceu a minha família.

P.S: Nome da aniversariante "Basha", Origem:Suarili - Quênia. Significado do nome BashaAto de Deus.

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