16 de fev de 2010

A mulher viajando e eu com meus vales nights.



Eu já fui um folião intenso em outros carnavais. Mas foi em Salvador (Bahia) que eu deixei meu lado folião ir para as profundezas do inferno. Ahahahah. Nossa, vi tanta coisa que eu jurei que me encontrava no inferno literalmente.


Pulando a nostalgia, e voltando ao presente.


Meus amigos me encheram o saco para ir a um baile de carnaval. E eu dizendo que preferia litoral (praia), mas quando vieram com aquele papo de : “cara, a mulher ta viajando, vai ficar aí feito um homem do lar sem eira e nem beira. Ahahahha. Coloca qualquer roupa aí e vamos pro baile.” E acabei topando. Na hora pensei, com que fantasia? Não tinha comprado nada. Daí pensei, vou de boêmio, trovador ou pirata? Daí peguei um lençol branco, cortei e dei um jeito de virar uma roupa romana. Daí fui com sandália mesmo havaiana branca, e arrumei um coroa de ramos de arvore. Passamos no Fred pra seguir com ele e a Sansara, a criatura olha pra mim e diz: “já sei qual é sua fantasia Diego, é NARCISO. Tinha que vir de você essa idéia.” Eu estirei a língua e disse, era pra ser de romano né? Mas já que ta na cara que é essa, vai ser de Narciso então.



Bem, o desenrolar não preciso relatar né?


Concluindo com um belíssimo conto de carnaval


"Dizem por aí que amores de carnaval são passageiros, fúteis. Mas, aos olhos observadores do destino, marcantes histórias estão presentes nesses lisonjeiros momentos de desenfreada felicidade. Algumas, aniquilam vidas e outras, as solidificam. E existem ainda aquelas, que são a própria vida se manifestando e marcando as pessoas, pela eternidade.


Numa das mesas mais distantes do centro do salão, notava-se um casal. Ela, fantasiada de princesa medieval e ele, de trovador. O que mais se sobressaía naquela ocasião era a alegre vivacidade dos dois companheiros que já rumavam para a terceira idade. Confetes, serpentina e a animação inebriante os mesclavam em meio ao resto da moçada que se divertia.


Para eles, era mais do que um baile de carnaval. As mesmas marchinhas de todos os anos traziam às cabeças memórias de um tempo belo e saudoso, impetrado em momentos infinitos. O minúsculo salão de um bairro simples funcionava como uma máquina do tempo: há trinta anos, o local fora palco de um encontro, o primeiro dos dois apaixonados em toda sua vida.



Como nascedouro de todo aquele amor que cresceu e evoluiu em trinta anos, o salão remetia aos cônjuges sensações maravilhosas de antigas emoções que nunca morreram, mas que de certa forma, haviam se enfraquecido com o desenrolar dos anos.


Há trinta anos, dois corações recebiam um presente dos céus: foi uma paixão ardente, divulgada em um instante de divina luz, por palavras torpes e ao mesmo tempo ilustres, proporcionadas unicamente por uma paixão voraz.


As fantasias com que se vestiam também eram iguais às de trinta anos. Ele continuava o trovador que roubou a princesa de suas altas torres, cantando seu amor devoto, pelos ilimitados campos da vida. E, ela, a mesma princesa, que abdicava de seu castelo, para viver a vida peregrina com seu amado trovador.


E, curiosamente, a realidade não se distinguia da fantasia: fruto de um envolvimento proibido, o casal enfrentou uma tempestade de renegações por seu amor, uma espécie de Romeu e Julieta dos tempos modernos. Mas sua bravura e coragem perante esses desafios foi ainda maior que o preconceito da sociedade. Ora, ninguém diria quem eles deveriam amar, isso era inconcebível...


Logo vieram os filhos, as dívidas, a dureza da vida. Por trinta anos, o trabalho dos dois amantes foi incansável. Primeiro, a luta para pagar as prestações da casa; depois, o desafio de criar os filhos; as jornadas longas de trabalho; as noites que, comumente, tornavam-se dias.


A construção de suas vidas foi uma guerra bem sucedida. Mas também tinha deixado suas seqüelas: as dificuldades dessas três décadas escondiam atrás de si toda a magia que um dia envolveu o casal naquele modesto salão, em um baile de carnaval. As relações já não eram as mesmas; um beijo inesperado, já era algo comum; uma declaração de amor, algo totalmente ridículo.


Quando os filhos já tinham sido criados e saído de suas guardas, o trovador e a princesa caíram em depressão. A aposentadoria também tinha contribuído relativamente muito; já não havia nenhuma preocupação, nem a vida movimentada dos escritórios, nem os filhos do lado... em resumo, as vidas do casal estavam resumidas aos programas de auditório de domingos, vistos pela televisão.


Algumas pessoas afirmam ser natural essa queda de ânimos, no período que antecede a velhice. Mas aqueles que são realmente lutadores não ignoram essa batalha e se embrenham em mais uma luta.


Os amantes sabiam que seu fim estava próximo se continuassem daquele jeito; não o fim da vida, mas o fim de seus sentimentos. Uma sensação desagradável tomou conta dos dois. Era carnaval; a televisão transmitia o desfile das escolas de samba. Um pensamento síncrono dominou as mentes, com uma só lembrança e determinação: o velho baile de carnaval.


Troca de palavras confortantes e lembranças do seu primeiro baile traziam os sentimentos daquelas duas pessoas de volta ao seu apogeu.


Na noite seguinte, estavam no baile, fantasiados, pulando, dançando, vibrando, vivendo. Dentre as músicas, tocava "Máscara Negra", talvez a mais conhecida música carnavalesca do Brasil. A vontade de viver intensamente cada momento surgia juntamente com a paixão e amor que nunca morreram, mas que afloravam novamente, com total intensidade.


Mais do que um baile, mais do que saudosismo, naquele momento, o destino construía mais uma bela história: o reencontro de duas almas com a própria vida."

8 comentários:

Rosana Madjarof disse...

Dieguito!!!

Que lindo o que escreveu meu amigo!

Antes de qualquer coisa, quero dizer que você não precisava estragar o lençol branco para se fantasiar de romano... Prefiro imaginar que você cortou um lençol bem velhinho de no máximo 150 fios... hehehehehe

Entretanto, a segunda parte do texto me emocionou, pois dizem que amor de carnaval não passa das cinzas não é? Pois eu digo que meus pais se conheceram num baile de carnaval, e amaram-se intensamente, cumprindo o juramento que fizeram aos pés do altar: até que a morte os separem... Meu paizinho partiu para a longa viagem, mas o amor continua em seus corações.

Meu pai era bem o seu tipo sabe... Um fanfarrão daqueles, e vestia todo o tipo de fantasia... Tenho uma foto do papai fantasiado de Pierrot. Qualquer dia vou colocá-la no meu Blog. Meu paizinho era lindo, alto, de olhos verdes... Modéstia a parte... a quem eu puxei não é... hehehehehe

Bjs.

Rosana.

João Poeta disse...

Belo conto carnavalesco. O importante é viver a vida em quanto é tempo, intensamente se for possível, e não deixar que a morte nos devore devagrinho. Admiro muito estas pessoas que envelhecem com o espirito jovem.
João

Eninha disse...

Diego,
eu acho que essa historia de "vale night" é uma fria ...cuidado! ahahaha.
Aqui o povo tem "Deus no coração e diabo nos quadris", portanto
a "onda" aqui é forte :)
Concordo com seu post essa "felicidade desenfreada" aniquilam ou solidificam vidas . Como diz o Jorge Ben Jor "prudência e dinheiro no bolso canja de galinha não faz mal a ninguém"
Espero que vc tenha divertido imenso e tenha ótimas lembranças.
Eninha

Fernandez disse...

Muito bonito conto amigo Diego!
Como é bonito ver uma intensidade de casais re-aquecida, como no conto, depois de tantos carnavais.
Valeu pelo belo post.
Forte abraço, Fernandez.

joana disse...

Diego

Mais uma palavrita que eu aprendi em pleno 2010. "vales night",vou colocar na minha enciclopedia de cabeceira...ehehehe...

Voce tem razão,os carnavais de antes é que eram bons:emocionantes,requintados e ate romanticos.
Já não ha confetes nem serpentinas,eu adorava!

Diego,voce não tem perdão pelo lençol branco rasgado...eu obrigava voce a coze-lo linha por linha,ahahaha...

Parabens,amigo pela sua cronica!!!!

beijnhos
joana

arte-e-manhas-arte disse...

Diego,

Adorei o conto! Eu rebolo-me por histórias, não é? Com que então "vales night"!!! rsrs

Beijos
Luísa

Geraldo disse...

Olá Diego,

Nunca fui de carnaval, e nem com vale night eu combinaria.. afinal sou um bicho solar, diurno...

Alías estou quase com a bateria apitando neste comentário...

Abraço

oticas sp disse...

haha JAMAIS eu deixaria meu namorado sair pela noite na gandaia com um Vale Night . Mas é NUNCA MESMO ! =) Até parece.. rs

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